
“A indústria de genérico
não é cópia”
A parceria entre o grupo EMS – Sigma Pharma e a empresa Monte Research foi, recentemente, um dos principais assuntos do noticiário econômico, rendendo matérias em veículos consagrados. Não era pra menos: o investimento será de sete milhões de euros; esse acordo técnico-científico amplia a participação da EMS – Sigma Pharma no mercado europeu e ainda oferece aos brasileiros a chance de terem acesso a novos e sofisticados medicamentos.
O que o Top Team se propõe a mostrar a seguir é, justamente, um novo ângulo, revelando detalhes estratégicos dessa parceria, que só foi concretizada graças aos esforços de Daniel Feliciano, diretor internacional da EMS – Sigma Pharma.
O executivo revelou, com exclusividade, como ele se preparou para fechar o acordo; fez uma análise sobre o mercado farmacêutico brasileiro e ainda destacou: “a indústria de genérico não é cópia, mas sim uma atividade de constante pesquisa e desenvolvimento”.
Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista, concedida no complexo industrial da EMS, em Hortolândia, interior de São Paulo:
Top Team: Quais os motivos estratégicos que levaram o EMS - Sigma Pharma a assinar um acordo com a empresa Monte Research?
Daniel Feliciano: O mercado americano de genéricos é muito diferente do brasileiro. Lá, a agência reguladora estimula a entrada desse tipo de produto, oferecendo seis meses de exclusividade ás empresas que pesquisarem formulações sem infringir a lei de propriedade intelectual vigente. É isso que nós buscamos com o apoio da Monte Research. Ela conta com uma equipe de 23 cientistas e é especializada no desenvolvimento do drug delivery system, sistema que permite desenvolver uma nova formulação para que uma droga seja liberada no organismo de uma forma mais rápida ou lenta de acordo com as necessidades do paciente.
Top Team: Mas, qual é a posição do Grupo EMS - Sigma Pharma em relação á quebra de patente?
Feliciano: O grupo é a favor do direito de patente, que dura vinte anos. Mas, infelizmente, hoje existe um movimento mundial, por parte das empresas de pesquisa de medicamentos, com o objetivo de se fazer uma extensão dos direitos de patentes já concedidos. Esse tipo de situação começou a existir no Brasil, com duas moléculas.
Essas extensões de patentes são lesivas a economia nacional e ás atividades de pesquisa e desenvolvimento. Por duas razões: uma porque são drogas caríssimas que se pudessem ser disponibilizadas a um preço mais competitivo ajudaria a movimentar a economia brasileira; e outra porque as empresas ficam desestimuladas a investir em pesquisa. A competição acaba com a zona de conforto das empresas e as companhias são estimuladas a pesquisar novas moléculas para apresentar soluções aos cidadãos.
Top Team: Nesse contexto, pode-se dizer, então, que a atividade de genérico é uma das que mais investe em pesquisa? |
Feliciano: Exatamente, a indústria de genérico não é cópia, mas sim uma atividade de constante pesquisa e desenvolvimento. Já as demais indústrias estão bastante acomodadas com suas patentes, a ponto do mercado farmacêutico ficar estável. Não tem havido um crescimento em termos de valores e nem de volumes. O mercado está em permanente recomposição. Existe sim um grande espaço para as companhias nacionais e a EMS vai investir, fazendo pesquisa clínica de produtos desenvolvidos no país para que eles sejam lançados no mercado como produto original brasileiro. Isso hoje não existe, pois para se registrar um produto no Brasil você precisa provar que ele já está registrado em um outro país. Nós gostaríamos de inverter essa lógica.
Top Team: No mercado de genéricos, qual o diferencial do grupo EMS e qual posição ele ocupa no ranking do segmento farmacêutico?
Feliciano: O principal diferencial é a coragem do grupo em investir em pesquisa de desenvolvimento e em profissionais de ponta para encontrar soluções para o mercado. Nós temos como missão “Crescer ou crescer” e nosso grupo é orientado para produzir mais, sempre em melhor qualidade, para vender e empregar mais pessoas. Em volume de vendas e em valores, o EMS – Sigma Pharma é o segundo grupo do mercado, com um faturamento anual de US$ 600 milhões. O objetivo principal do grupo é estar sempre entre os três maiores do Brasil, já que é impossível prever as fusões.
Top Team: Focando um pouco a sua carreira, qual foi o primeiro desafio que você teve á frente do grupo?
Feliciano: O primeiro desafio foi fazer o licenciamento de produtos, em geral, produtos patentiados para o mercado brasileiro. Foi nesse momento que eu comecei a trabalhar internacionalmente, fiz contatos com empresas de pesquisas para trazer medicamentos ao Brasil. Depois, desse estágio, meu departamento de desenvolvimento de negócios incorporou a divisão internacional e tivemos o desafio de lançar produtos na Europa. Estruturamos, então, uma diretoria internacional e exportamos para a América Latina, Canadá, Portugal e outros países da União Européia.
Top Team: Como você se preparou para desenvolver negócios internacionalmente e assumir a operação Européia da EMS – Sigma Pharma ?
Feliciano: Eu comecei trabalhando na Rent Power e Rossetti Mkt, como propagandista e, mais tarde, assumi o departamento comercial, tornando-me gerente comercial. Nessa empresa, eu aprendi o valor da inovação. Quem trabalha na indústria farmacêutica precisa pensar com criatividade, buscar os insights. A Rent Power e Rossetti Mkt foi uma escola fantástica. Lá, eu aprendi muitas coisas que contribuem, até hoje, para a minha tomada de decisões.
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A polêmica da embalagem
Discutiu-se na imprensa se as embalagens dos genéricos oferecidos pelo Grupo EMS – Sigma Pharma são cópias das embalagens dos medicamentos originais. Em comunicado ao Top Team, o Grupo informou que adota estratégia para orientar os consumidores que precisam comprar medicamentos isentos de prescrição. “Com as embalagens semelhantes nos OTCs, levamos o consumidor a perceber a existência do genérico nessa categoria. Assim ele passa a ter a opção de escolher, de forma consciente e esclarecida, entre o medicamento genérico e o de marca”, comentou Telma Salles, diretora de Relações Externas. |
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