“É
muito difícil a prática da inovação
nesse cenário”
A
Associação dos Laboratórios Farmacêuticos
Nacionais (Alanac) foi criada há mais de vinte anos para
defender os interesses da indústria brasileira fabricante
de medicamentos, como, por exemplo, a EMS, Eurofarma, Zodiac e União
Química.
Entre outras ações,
a entidade se destaca por tentar empedir que lobbies estrangeiros
consigam exercer influência junto Instituto Nacional da Propriedade
Intelectual. “A Alanac tentou de várias formas, em
conjunto com outras entidades, demonstrar que a aprovação
do projeto como o governo brasileiro desejava, seria danoso aos
interesses da indústria nacional”, analisa Carlos Geyer,
diretor-presidente da entidade, que, em entrevista exclusiva ao
Top Team, critica a Anvisa e diz que o fracionamento
é desnecessário. Leia a seguir:
Top Team: Como você avalia a participação
de mercado das indústrias nacionais? Ela aumentou com os
genéricos?
Carlos Geyer: A
participação das indústrias nacionais vem crescendo
nos últimos anos, já tendo ultrapassado 40% em 2006.
Certamente, o incremento na produção de genéricos
contribuiu para isto. Estima-se que a participação
dos genéricos no mercado seja atualmente superior a 11%,
e como mais de 80% da produção de genéricos
está concentrado em laboratórios nacionais, aí
temos parte da explicação.
Top Team: As indústrias
brasileiras estão preparadas para enfrentar a concorrência
das grandes multinacionais?
Carlos Geyer: Havendo
regras claras, justas e adequadas de regulação sanitária
e econômica, os grandes laboratórios nacionais nada
ficam a dever a muitas indústrias transnacionais. É
preciso que a prioridade que o setor de fármacos e medicamentos
tem na PITCE (Política Industrial Tecnológica e de
Comércio Exterior) seja efetivamente consolidada através
da aplicação efetiva e eficaz dos instrumentos já
desenvolvidos para tal, como o programa profarma do BNDES, por exemplo.
A pequena e média indústria ainda precisam de muita
atenção, principalmente aquelas de grande potencial
tecnológico.
Fonte: Alanac
Top Team: Durante
os últimos anos, a Alanac tem se empenhado em impedir que
lobbies estrangeiros consigam exercer influência junto ao
Inpi (Instituto Nacional da Propriedade Intelectual). Quais ações
foram feitas?
Carlos Geyer: A
Alanac, teve um histórico de luta contra a implantação
da legislação de propriedade intelectual na área
de fármacos e medicamentos, que não atenda os interesses
da indústria nacional da forma como implantado. O Brasil
foi muito além nos termos das concessões que o acordo
Trips determinava. Fomos talvez o único país do mundo
a aceitar, na época 1996, o chamado Trips plus e também
o Pipeline. Não aproveitamos, devido a pressões da
indústria transnacional, especialmente do governo e da indústria
dos EUA. A Alanac tentou de várias formas, em conjunto com
outras entidades como Abifina, demonstrar que a aprovação
do projeto como o governo brasileiro desejava, seria danoso aos
interesses da indústria nacional. Infelizmente interesses
comerciais imediatos e não estratégicos predominaram.
Atualmente a sociedade começa a ter uma noção
mais clara do problema.
Top Team: De que forma as indústrias nacionais
poderiam aumentar o market share?
Carlos Geyer: Principalmente
através de inovações incrementais em medicamentos
similares, os únicos nos quais isto é possível,
desde que a Anvisa compreenda a importância estratégica
deste tipo de inovação, não criando juntamente
com a CMED entraves para o desenvolvimento do processo.
Top Team: A fusão
entre laboratórios grandes multinacionais é prejudicial
para a indústria brasileira? Por quê? Em quais aspectos?
Carlos Geyer: A
concentração da indústria farmacêutica,
através de fusões e aquisições, é
tendência mundial. No Brasil não será diferente.
Top Team: Quais
são as principais dificuldades das indústrias brasileiras?
Carlos Geyer: Uma
das principais é a atuação da Anvisa e CMED
muitas vezes pautada pela falta de critérios objetivos, aliado
ao não cumprimento dos prazos legais. Também a criação
de normas e regulamentos, que por vezes conflitam com a legislação
existente. É muito difícil a prática da inovação
neste cenário, principalmente por parte das pequenas e médias
indústrias farmacêuticas geralmente pouco capitalizadas.

Fonte: Alanac
Top Team: Na sua
opinião, as indústrias brasileiras estão preparadas
para adotar os remédios fracionados?
Carlos Geyer: As
pequenas e médias indústrias terão enormes
dificuldades financeiras para implantar linhas de fracionamento
caso isto venha a ser compulsório. Em nossa opinião
a compulsoriedade do fracionamento é desnecessária.
Não temos dúvida que há uma visão equivocada
sobre os benefícios do fracionamento, que acaba por influenciar
a sociedade.
Top Team: Para terminar,
qual a sua expectativa para 2008? A participação das
indústrias nacionais no mercado vai aumentar?
Carlos Geyer: Há
tendências de continuar o aumento da participação
da indústria nacional, embora talvez em um ritmo mais lento.
Isto depende muito do equacionamento das principais dificuldades
enfrentadas pela indústria brasileira, que já mencionamos.
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