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A luta pela qualificação
Por Celso Gagliardo*
Carlos Alexandrino é um motorista
mineiro atento às inovações. Cordial, cheiroso,
carro limpo, som de primeira, pontualidade e discrição
constituíam o seu diferencial. Um dia, Carlos sentiu que
a maioria dos colegas estava alcançando o seu patamar de
qualidade. Então, pensou em alternativas, pois o que era
o seu fator diferencial de serviço, de repente se tornou
exigência de qualificação. E assim, foi aprender
a língua inglesa, que o distinguiu dos demais, e a demanda
dos bons traslados para ele voltou-se.
A luta pela qualificação
ganhou novos contornos – a simples graduação
não garante mais nada. Mesmo gente bem experiente e ocupando
postos de comando foi apressada pela força da qualificação
crescente. A mudança vem numa velocidade espantosa; a obsolescência
chega cada vez mais cedo; o que ontem era suficiente, hoje está
superado.
A globalização da economia, por exemplo, infernizou
a vida de muitos profissionais. Saber falar e escrever a língua
inglesa é exigência até para nível de
analista nas organizações mais cobiçadas. Anúncios
de emprego pedem duas línguas estrangeiras; o espanhol é
moda, e até o impensável mandarim tem sido requisitado
no mundo dos negócios.
Ninguém pode parar! Está
decretado o fim da acomodação. Temos colegas de 40,
50 anos investindo em incursões para outros países,
encarando quais adolescentes os tais programas de intercâmbio,
deixando família e emprego certo para aprender inglês
definitivo e se ilustrar pelas técnicas de países
mais desenvolvidos.
Uma decisão difícil e um investimento duramente planejado.
São profissionais tarimbados que, com o coração
partido, batem asas para auferir o conhecimento que é cobrado
no dia-a-dia de trabalho e nas entrevistas de seleção.
Ficam meses e meses convivendo com gente estranha, com outros hábitos
e alimentação, readaptando-se a novas realidades e
culturas, e assim expondo-se internacionalmente, abrindo seu espectro
mental; enfim, ajustando o nível de sua empregabilidade.
Poucos puderam priorizar a língua
estrangeira no início difícil das suas carreiras,
e a exigência do mercado não era forte nesse sentido;
mas o tempo passou e, hoje, é preciso novos esforços
para estar diferenciado ou para ficar dentro das exigências
de qualificação – o que antes era um diferencial
–, valendo para motorista, porteiro, operador, analista, supervisor,
gerente ou diretor; enfim, afetando a todos, de alguma forma.
Duros sinais dos tempos modernos,
em que reaprender, fazer melhor e com menos é exigência
contínua, de sobrevivência, mesmo.
(*)Celso Gagliardo é especialista em Recursos
Humanos, jornalista e advogado.
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