Entrevista
A criatividade brasileira

Por Rodrigo Capella

António Alberto Rodrigues "O excesso de formalismo em Portugal é um obstáculo à fluidez da comunicação, mas este aspecto vem melhorando substancialmente nos últimos anos, fruto da influência das telenovelas brasileiras no país e também da grande quantidade de emigrantes brasileiros residentes em Portugal e, porque não dizer, fruto de uma relação cada vez mais próxima entre os dois países".

A análise acima é de António Alberto Rodrigues, português de nascimento e diretor geral da Roche em Portugal. Em entrevista exclusiva ao Top Team, o executivo comenta a criatividade da industria farmacêutica e defende que "o marketing requer muita análise, mas o instinto não pode ser negligenciado".

Rodrigues dá também algumas dicas para os executivos que querem ter uma sólida carreira na indústria farmacêutica. Para ele, "é necessário analisar, recolher dados e - mais importante ainda - decidir. E isto requer intuição e muita coragem".

Acompanhe a seguir os principais trechos da entrevista:

Top Team: Durante a sua carreira, você assumiu diversos cargos, em vários países. Como foi lidar com as novas responsabilidades?
António Alberto Rodrigues: A carreira foi feita passo a passo, apesar de ter tido um começo muito rápido. Depois de três meses como representante, assumi na Roche a gerência da filial Rio de Janeiro Interior e, pouco tempo depois, também estava dirigindo Espírito Santo, Minas Gerais e Rio de Janeiro Capital. Aos 32 anos, recebi o convite para comandar a Gerência Nacional de Vendas e tornei-me, provavelmente, o Gerente de Vendas mais jovem do Brasil na Indústria Farmacêutica. Este foi um enorme desafio, não só porque o Brasil é um país muito grande, mas porque, entre as quase mil pessoas que faziam parte de minha equipe, eu era um dos mais jovens. Foi uma época extremamente desafiante, mas sobretudo um período de grandes conquistas pessoais e profissionais.

Top Team: Nesta época, quais resultados foram obtidos?
António Alberto Rodrigues: Conseguimos alcançar a liderança do mercado e ser a empresa número um durante vários anos. Éramos uma equipe com um entusiasmo contagiante. Foi também nesta época que transferimos a sede da Roche do Rio de Janeiro para São Paulo e com esta mudança assumi uma nova responsabilidade na Companhia, como Gerente de Marketing.

Top Team: O lançamento de novos produtos tinha destaque na companhia?
António Alberto Rodrigues: Sim, o lançamento de novos produtos era uma constante e a busca de novas oportunidades era quase obsessiva. O marketing requer muita análise, mas o instinto não pode ser negligenciado. Recordo uma situação em que chamei um Gerente de Produto e lhe disse que íamos lançar uma vitamina com determinadas características. A sua resposta foi: "Não tem chance. Já fizemos vários estudos e análises de mercado e não tem espaço para essa vitamina". Eu respondi: "Ok. Não te preocupes. Deixa que eu lanço". O Ephynal 400 mgr acabou tornando-se um grande sucesso de vendas e o Gerente perdeu a oportunidade de colocar esse case em seu currículo.

Top Team: Depois, você foi convidado para trabalhar na Argentina, comandando, inclusive, os escritórios de Paraguai e Bolívia, e na sequência, liderou a Roche na Colômbia. Como foi esta experiência?
António Alberto Rodrigues: Foi uma experiência interessantíssima em que presidia simultaneamente a Roche na Colômbia e também no Equador. Dividia a minha semana entre dois países com moedas e sistemas de saúde distintos, que tinham apenas em comum a mesma língua. As maiores satisfações nesta experiência foram, em primeiro lugar, transformar a Roche de sexta empresa em primeira Companhia do mercado farmacêutico colombiano. A segunda foi ter desenvolvido vários programas de apoio aos doentes.

Top Team: Mais tarde, você se tornou presidente da Roche em Portugal. Fazendo uma breve comparação, há muitas diferenças entre as indústrias farmacêuticas deste país e do Brasil?
António Alberto Rodrigues: No Brasil, existe um espaço maior para a criatividade do que em Portugal. O excesso de formalismo em Portugal é um obstáculo à fluidez da comunicação, mas este aspecto vem melhorando substancialmente nos últimos anos, fruto da influência das telenovelas brasileiras no país e também da grande quantidade de emigrantes brasileiros residentes em Portugal e, porque não dizer, fruto de uma relação cada vez mais próxima entre os dois países.

Top Team: Para finalizar, quais dicas você daria para os executivos que querem ter uma carreira na indústria farmacêutica?
António Alberto Rodrigues: Em primeiro lugar perseverança. Ela é fundamental. Quando cheguei ao Brasil, por exemplo, deparei-me com o obstáculo da língua. O português mais "açucarado" do Brasil, como se diz em Portugal, colocou-me alguns desafios. Para superar a questão do sotaque, assistia ao Jornal Nacional da TV Globo com o Cid Moreira e repetia as suas palavras para treinar a pronúncia. Outra dica é que a liderança é fundamental como catalizador da energia e do entusiasmo, mas também como instrumento de orientação e foco. É necessário analisar, recolher dados e - mais importante ainda - decidir. E isto requer intuição e muita coragem.



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