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Entrevista

“A indústria farmacêutica devia ser mais ética”

Após realizar inúmeras viagens e participar das mais importantes discussões sobre o mercado farmacêutico, o presidente da ABC Farma, Pedro Zidoi, recebeu a equipe do Top Team para uma longa conversa, na sede da Associação Brasileira do Comércio Farmacêutico.


Com um tom bem humorado e criticando o governo em vários momentos, Zidoi sugeriu uma regulamentação da Anvisa para que os laboratórios possam ampliar a propaganda nas farmácias. “A dor de um reflete nos demais. Quando eu falo dessa forma, refiro-me tanto ás normas quanto ás resoluções”, analisou.

Durante a entrevista, o presidente da ABC Farma falou também sobre quebra de patente, visitação médica, remédios fracionados e negociações entre farmácias e indústria. Acompanhe abaixo a conversa na íntegra:


Top Team: As restrições da Anvisa ás propagandas nas farmácias prejudicam a boa relação entre laboratórios e drogarias?

 

Pedro Zidoi: A indústria, distribuidores e varejo formam uma única família. A dor de um reflete nos demais. Quando eu falo dessa forma, refiro-me tanto ás normas quanto ás resoluções. Elas têm certamente dificultado o bom funcionamento. Em relação á propaganda, eu sou favorável a uma regulamentação, mas não a um abuso de poder, inibindo laboratórios, distribuidores e farmácias. Sou favorável a uma regulamentação saudável.



Top Team: E como ela seria?

 

Pedro Zidoi: A regulamentação deve reunir a Anvisa, técnicos da indústria, os distribuidores e o varejo. Dentro desse contexto de liderança, devemos encontrar o que a Anvisa quer, o que a população precisa e o que as empresas desejam. Então, eu não tenho um trabalho pré-elaborado. Ele precisa ser discutido com todas as partes envolvidas.



Top Team: Atualmente, nós vivenciamos a quebra de patente do governo em relação ao medicamento para Aids, do laboratório Merch Sharp & Dohme. O governo disse que, se for necessário, vai estender essa medida para outras doenças. Qual a opinião do senhor sobre esse episódio?

 

Pedro Zidoi: Esse é aquele fogueteiro que está soltando rojão, e resolve segurar a vara na mão. O governo tem que verificar que a patente é um direito de quem descobriu o medicamento. Para aquela descoberta, foi investido muito dinheiro e a indústria precisa recuperar o valor dentro de vinte anos, contados a partir do registro do medicamento. Qual laboratório vai investir muito dinheiro na descoberta de um medicamento sendo que o governo brasileiro pode acabar com a patente de uma hora para a outra? Ninguém vai fazer isso. Nós temos que respeitar a patente. Se isso não acontecer, o Brasil vai ficar na contramão da história e nenhum investidor estrangeiro vai colocar dinheiro em nosso país.



Top Team: Focando agora nas negociações entre farmácias e indústria, pode-se dizer que vivemos um novo cenário?

 

Pedro Zidoi: Sim. Antigamente, todas as compras que as farmácias faziam eram direto com a indústria farmacêutica. Passavam os vendedores que tiravam os pedidos, mas só voltavam trinta dias depois. Com isso, vendíamos rapidamente boa parte da mercadoria e tínhamos que esperar o vendedor voltar para repor o estoque. Acabávamos perdendo muitas vendas. Em um outro momento, o formato de negociação mudou: distribuidoras passaram a vender diretamente nas farmácias. Essa forma deu certo, pois a mercadoria era reposta diariamente. Mas, a indústria farmacêutica perdeu muito com isso, perdeu totalmente o controle da coisa, já que não tinha mais contato direto com as farmácias. Para reverter esse quadro, algumas montaram equipes de vendas para visitar as farmácias, mostrar os novos produtos, extrair pedido e encaminhar ao distribuidor. Esse é o novo cenário.



Top Team: Para o senhor, existe uma parceria ideal entre farmácia e indústria? Ela já está sendo colocada em prática?

 

Pedro Zidoi: Olha, eu sempre falo o que eu realmente penso. Algumas indústrias farmacêuticas causaram o fechamento de centenas e centenas de farmácias. Esses laboratórios foram até as grandes redes e deram uma condição especial de até 70% de desconto. As indústrias que fizeram isso não têm interesse de entrar em contato com outras farmácias porque já estão satisfeitas com essas vendas realizadas. É uma venda de pouca despesa e de bom resultado financeiro. Eu acredito que a indústria farmacêutica devia ser mais ética. A condição que ela oferece para uma farmácia deveria ser oferecida para as demais.

Clique aqui para ler a segunda parte da entrevista.


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